terça-feira, 20 de setembro de 2011

Estamos obcecados com "o melhor".

Excelente texto da jornalista Leila Ferreira 
  Leila Ferreira é uma jornalista mineira  com  mestrado em Letras e doutora em Comunicação, em Londres.  
Apesar disso, optou por viver feliz uma vidinha mais simples, em Belo Horizonte... 
(Leila Ferreira)  
  
Estamos obcecados com "o melhor".  
Não sei quando foi que começou essa mania, mas  
hoje só queremos saber do "melhor". 

Tem que ser o melhor computador, o melhor carro,  
o melhor emprego, a melhor dieta, a melhor  
operadora de celular, o melhor tênis, o melhor vinho. 

Bom não basta.  

O ideal é ter o top de linha, aquele que deixa os  
outros pra trás e que nos distingue, nos faz sentir importantes,  
porque, afinal, estamos com "o melhor". 

Isso até que outro "melhor" apareça -  
e é uma questão de dias ou de horas até isso acontecer.  

Novas marcas surgem a todo instante.  
Novas possibilidades também. E o que era melhor,  
de repente, nos parece superado, modesto, aquém  
do que podemos ter. 

O que acontece, quando só queremos o melhor,  
é que passamos a viver inquietos, numa espécie  
de insatisfação permanente, num eterno desassossego.  

Não desfrutamos do que temos ou conquistamos,  
porque estamos de olho no que falta conquistar ou ter.  

Cada comercial na TV nos convence de que merecemos  
ter mais do que temos. 
Cada artigo que lemos nos faz imaginar que os  
outros (ah, os outros...) estão vivendo melhor,  
comprando melhor, amando melhor, ganhando  
melhores salários. 

Aí a gente não relaxa, porque tem que correr atrás,  
de preferência com o melhor tênis.  

Não que a gente deva se acomodar ou se contentar sempre com menos.  
Mas o menos, às vezes, é mais do que suficiente.  

Se não dirijo a 140, preciso  
realmente de um carro com tanta potência?  

Se gosto do que faço no meu trabalho, tenho que  
subir na empresa e assumir o cargo de chefia que  
vai me matar de estresse porque é o melhor cargo  
da empresa?  

E aquela TV de não sei quantas  
polegadas que acabou com o espaço do meu quarto?  

O restaurante onde sinto saudades da comida de  
casa e vou porque tem o "melhor chef"?  

Aquele xampu que usei durante anos tem que ser aposentado  
porque agora existe um melhor e dez vezes mais caro?  

O cabeleireiro do meu bairro tem  
mesmo que ser trocado pelo "melhor cabeleireiro"? 

Tenho pensado no quanto essa busca 
permanente do melhor tem nos deixado  
ansiosos e nos impedido de desfrutar o  
"bom" que já temos .  

A casa que é pequena, mas nos acolhe. 

O emprego que não paga tão bem, mas nos enche de alegria.  

O homem que tem defeitos (como nós), mas nos  
faz mais felizes do que os homens "perfeitos". 

As férias que não vão ser na Europa, porque o dinheiro não deu,  
mas vai me dar a chance de estar perto de quem amo...  

O rosto que já não é jovem, mas carrega as marcas  
das histórias que me constituem. 

O corpo que já não é mais jovem, mas está vivo e  
sente prazer. 

Será que a gente precisa mesmo de mais do que isso?  

Ou será que isso já é o melhor e, na busca de tudo que nos dizem ou imaginamos ser "melhor", a gente nem percebeu?


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